O Menino e o Anjo


Era dia chuvoso. Pingos d’água burilavam pelas folhas das arvores. Mais um dia para que o menino olhasse pela janela com olhos turvos.
Quem é esse menino? Ninguém sabe. Tantas pessoas se emocionam com dias de chuva, sentem-se adentrar em suas almas e procurar baús de coisas velhas ou um motivo de aquecer em seus pensamentos.
Chegara a tarde e a chuva deu um tempo. Como quem buscava uma palavra para expressar o que passava dentro de sua cabeça, o menino sai, depois de perguntar ao pai:
- Pai. Aquela casa no bosque ainda existe?
- Dizem que sim, meu filho. Mas por que pergunta?
- Quero conhecer. Responde o menino.
- Tome cuidado filho, as chuvas durante esses dias deixaram as estradas escorregadias e ainda não é tempo de sair para aventurar.
Apesar de ter apenas 15 anos, era um garoto que andava por muitos lugares já em sua cidade. Cercada de montanhas e histórias que fantasiavam a imaginação de seus moradores, crianças e jovens se aventuravam em seus bosques e riachos. Sempre havia a preocupação dos pais, mas assim como os filhos, que agora repetiam suas brincadeiras, havia a sensação de liberdade sempre que lembravam das brincadeiras que faziam.
Saiu sem ser percebido. Há dias parecia somente uma sombra andando em meio as casas e pessoas. Talvez a chuva tenha ajudado a parecer assim. Foram muitos dias sem poder sair de casa para se divertir ou encontrar seus amigos.
Correu para o bosque e como se estivesse preso há muitos anos, começou a aproveitar o máximo daquilo que já conhecia bem. O caminho a seguir, as árvores que gravara nomes ou desenhos, pequenas amoras que pelo caminho apareciam. A visão do lugar levava sempre a idéia de épocas medievais, cabanas ao largo de grandes campos que perdiam de vista. O vento parecia soprar palavras ou gemidos aos pés do ouvido e davam arrepios.
Sua aventura apenas começara e ele tinha um propósito. Não era somente a curiosidade que habitava sua mente, mas no seu imaginário e nas lendas contadas no vilarejo, ele foi atrás de respostas para muitas perguntas ou talvez uma única.
Avistou uma cabana. Sentia seu coração bater forte. Até vibrava sua roupa. Mistura de emoção, de curiosidade, de sucesso. Tinha feito uma caminho novo para chegar até ali.
Havia um homem de idade já avançada na porta que admirava o pasto. Talvez pensando sobre o que a chuva teria feito na terra por esses dias e o que veria quando o chão secasse um pouco. Também passava a sensação de que estava aguardando alguém ali.
Logo que chegou a porta da cabana e pudera conversar, o menino não conteve a explosão dentro dele e como se soubesse que o velho o esperava, logo perguntou:
- Sempre ouvi histórias dessa cabana. Sei que é tarde e preciso voltar. Mas só me responda uma pergunta. Como faço para rezar?
O velho estava atordoado pela pergunta. Certamente não passavam pessoas ali perguntando esse tipo de coisa. Ainda mais, meninos. Sempre conversava com pessoas mais velhas que iam ali aproveitar da paisagem, das histórias que o velho contava sobre sua vida. O que gerou parte das lendas da cidade.
- Está tarde. Precisa voltar antes que sua família fique preocupada contigo. Volte por outro caminho. Siga até enxergar uma igreja no começo do vilarejo. Dizia o velho gentilmente.
Desapontado, pois tinha ido atrás de respostas, o menino apenas virou e seguiu o caminho que o velho apontava. Estava triste, a emoção de alcançar a cabana passou quase que totalmente.
Pensava na pergunta e como havia abordado o velho. Teria assustado o velho? Seria somente lenda o que ouvira? Estava mais perdido dentro de si mesmo que uma folha a plainar pelo vento que anunciava mais chuva.
Já estava perto da igreja quando se encontrou em seus pensamentos. Parecia que havia sido guiado até ali. Mas mesmo a surpresa que espantava pela rapidez que chegou as portas do vilarejo, não fazia menor a sensação de fracasso por não ter conseguido alcançar seu objetivo e talvez até mesmo a pergunta começasse a ser tola. Quem responderia aquilo? Era íntimo demais.
Seus pensamentos já começavam a deixá-lo com vergonha daquilo que fez. Ir até um estranho e fazer aquele tipo de pergunta. Mas já era tarde e ele já tinha feito.
Passando pela igreja percebeu que estava aberta. Seu peito estremeceu de pensar em entrar. Há tempos não entrava ali e a ultima vez que fizera, foi para se despedir de alguém importante.
Enfrentou o temor da lembrança, adentrou a igreja que se encontrava sem ninguém, somente com as sombras daquilo que viveu ali. Sentou-se perto de um nicho onde tinha uma imagem de cor pastel. Por um momento a sombra dessa imagem apavorou seu coração. Ela trazia a presença daquela que o ensinou a conversar com anjos e escutar a voz da alma do mundo.
Nesse momento, sentiu como se ouvisse sua mãe dizendo que a oração mais bonita seria a do diálogo. Como se conversasse com um amigo. Se abrisse com Deus como aquele que estava ali para escutar.
Derrepente se deu conta que não precisava ir longe para ter a resposta da sua pergunta. Ele foi buscar o que precisava e talvez se não tivesse feito isso, não se lembraria de sua mestra. Sentiu novamente um pouco de alegria nesse momento. A imagem trazia a forte lembrança dela, mesmo ele não enxergando tão bem o que era a imagem.
Já tinha a resposta. Resolveu sair e voltar para casa. Estava anoitecendo e logo seu pai ficaria preocupado. Estava já na porta da igreja quando resolveu olhar para trás e tentar enxergar a imagem ao fundo. Ficou espantado.
- Era um anjo! Pensava esclarecido.

(o texto surgiu no ano de 2003)

Comentários

  1. um texto, belo e lucido, mostrando a profundida em que buscamos algo que ja temos.

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