Uma recordação, um agradecimento
Ainda falando da figura de minha mãe, lembro que na época de seu falecimento, um ano após, eu tive contato com um livro chamado Confissões de Santo Agostinho, no qual o santo destaca dois capítulos dessa obra para, numa espécie de agradecimento, perpetuar a memória de sua mãe.
Agostinho de Hiponna obteve sua conversão graças às inúmeras lágrimas e incontáveis orações de pedido de perdão em favor dele pela sua mãe, Mônica.
Ele lembra em capítulos simples a presença marcante da fé de sua mãe encobrindo de proteção e força um rapaz pagão que passou por diversas filosofias heréticas.
Vivenciar a heresia na idade medieval era implorar pela perseguição e pela morte com certeza, ainda mais para alguém que logo viria a ser tornar uma figura importante nos altares das igrejas e no cânone.
Acontece que comparar esse episódio da vida de Santa Mônica e de Santo Agostinho com a vida de minha mãe, antes de tudo peço ainda a liberdade de deixar que compreendam que não canonizo sua figura, mas quero demonstrar uma comparação mais humana, é comparar a luta e os sacrifícios realizados por uma mulher desgastada por uma vida difícil, e uma infância cheia de regras difíceis.
Eu busquei várias vezes entender a comparação que fiz na época de ambos os acontecimentos, mas garanto que algo ali tinha mudado meu pensamento. Enfrentar a dor de perder alguém que é o pilar de sua casa e também o sustento de suas crenças era difícil demais. Agostinho desabafou quando declarou em suas confissões que fora sua mãe a responsável pelas mudanças sensíveis que viriam ocorrer em sua vida. Aceita-lo, redimi-lo, e perdoa-lo por ele mesmo foi antes a fonte maior de sua força para adquirir a sabedoria divina e uma espiritualidade tão profunda.
Eu sempre tive a oportunidade de escutar as histórias que minha mãe contava a respeito de sua infância e de suas experiências, mas uma coisa era visível: ela não gostaria que tivéssemos tido a mesma educação que teve através do sofrimento que alguns ainda acreditam que seja a melhor maneira de ensinar.
Minha mãe com certeza foi uma mãe em sua simplicidade e acolhimento e uma mestra na sua maneira de ensinar e acreditar no melhor para mim e meus irmãos.
Hoje, tomo algumas palavras do Santo de Hiponna, para dizer: “Obrigado, singela mulher que me concebeu a luz e ensinou-me a enxerga-la. Caminhar teria sido difícil para alguém que não tinha pilares nas pernas e o sustento dos céus.
Obrigado, Mãe, porque me acolheu em meio as dificuldades e das tantas renuncias que precisou fazer por mim.
Obrigado, Mestra, porque abriu minha mente para a sabedoria e meu coração para Deus.”
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