Pietá
Quem não conhece a famosa escultura de Miguel Ângelo de Maria que recebe seu filho, Jesus, nos braços após a crucificação? A mesma se encontra na Itália na Basílica de São Pedro, sede papal.
A história percorre a formação religiosa que se encontrava o artista quando esculpiu essa imagem que choca pelas feições de uma mãe que recebe seu filho morto nos braços e onde lembramos do heroísmo de uma mulher dedicada a casa, ao filho e ao marido como era papel de toda mulher nos tempos antigos. Feições de uma mãe que simplesmente se vê perante seu objeto de adoração e dedicação. Sabemos pela tradição que recebemos da religião cristã o papel fundamental de Maria na vida de Jesus, mas hoje a cena repete com diversas mães e diversos pais, com muitas famílias e com a sociedade em geral.
Infelizmente não é de hoje que a violência reina em meio a nós e acabamos por aceitar ainda que não queiramos. Estamos vivendo a época de um aparelho jurídico defeituoso e de uma política nada justa. E mesmo que nos importemos, é bobagem gritar para quem nem dará um pouco de atenção. Estamos acostumados a conviver com tudo por comodismo e medo de sermos rechaçados, pois somos poucos em meio a multidão e a carga de informações que recebemos simplesmente ocupa um pouco do espaço racional que temos de “agir” para mascarar os acontecimentos do dia-a-dia. Simples, paramos para pensar quantas pessoas se feriram da semana passada para essa ou mesmo notamos que nossos vizinhos estão passando por alguma dificuldade? Provavelmente não, porque não nos importamos mais com quem vive ao nosso redor.
Em 2001 tive a oportunidade de visitar uma exposição de fotografias de Sebastião Salgado. Na época a mostra era seu trabalho intitulado Êxodos do qual mostrava a fome e a dura realidade das pessoas na África. A visita fazia parte de um projeto escolar que nos introduzia aos estudos de literatura. A professora pediu que guardássemos alguma imagem para depois fazer uma redação sobre ela e que mais chamou minha atenção fora intitulada de Pietá Argelina que mostrava uma mãe desesperada com o filho morto no colo no meio de uma multidão de pessoas fragilizadas com o descaso e já intimas da morte, pois essa mãe era somente mais uma entre tantas que perdiam seu filho por causa da desnutrição e dos maus-tratos de pessoas poderosas.
Essa imagem, como num golpe profundo lembrava a famosa escultura de Miguel Ângelo devido à semelhança das posições e também por coincidências nada comuns que o próprio Sebastião Salgado fez questão de comentar em sua obra. A mãe com o filho morto no colo e uma coincidência era uma mulher que passava atrás dessa cena com um vestido com desenhos de flores onde uma se encaixa exatamente como uma coroa na cabeça dessa mãe desesperada e logo remete a lembrar de Maria no flagelo de sua alma de mãe. Essa imagem acabou sendo tema de diversos alunos pela profundidade e comoção que provocava dentro de nós.
Era realmente impressionante perceber que uma realidade, símbolo de nossa espiritualidade é também realidade do cotidiano em diversas famílias por onde quer que vá. Não estão se matando pessoas de uma facção ou um grupo alvo, mas estão se matando pessoas, não importa quem seja. Seja branco, negro, amarelo, seja homossexual ou dogmático religioso. Sejam crianças ou qualquer um que passe na rua e você nem saiba de sua história de vida. E tudo que nos resta é conviver com isso todos os dias de nossas vidas? Sinceramente a resposta de justiça dos nossos corações ainda é permanecer como a Pietá enquanto não surgir uma solução verdadeira para tudo. E acredito, que mesmo assim vai demorar! Pietá, Pietá!
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